Home 26th JUN Mario Lucio & The Pan African Band (CV)

Photo © Lelvy Cruz

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26th JUN

11:30 pm

MArio Lucio & The Pan African Band

(CV)

Mario Lucio & The Pan African Band surgem como uma chama viva da crioulização cabo-verdiana, celebrando a fusão de África, diáspora e independência num tempo em que a identidade ainda é luta e festa. Cantor, compositor, poeta e ex-ministro da Cultura, Mario Lucio encarna a visão de um arquipélago que se fez na encruzilhada dos mares, onde ritmos proibidos renasceram livres e pan-africanos.

A 5 de Julho de 1975, Cabo Verde tornava-se independente. Era o segundo território de expressão portuguesa em África a libertar-se do jugo colonial e Mario Lucio Sousa tinha dez anos. Crescia no Tarrafal, ilha de Santiago, a mesma ilha onde o regime de Salazar instalara um campo de concentração para presos políticos das colónias. Um miúdo de dez anos guardava memórias de danças que regressavam, de músicas que voltavam de um exílio silencioso, de um povo que punha o corpo a celebrar o que durante décadas fora proibido. Cinquenta anos depois, esse miúdo regressou às memórias para fazer o disco da sua vida.

Lúcio Matias de Sousa Mendes, o nome completo que o mundo conhece como Mario Lucio, nasceu em 1964. Perdeu o pai aos doze anos e a mãe três anos depois, ficando com sete irmãos à guarda do exército cabo-verdiano, no quartel do Tarrafal. Foi o exército que lhe pagou a escola secundária; foi uma bolsa do governo cubano que em 1984 o levou a Havana a estudar Direito. Regressou seis anos depois, exerceu advocacia, foi assessor cultural do Ministério da Cultura, deputado ao parlamento entre 1996 e 2001, e de 2011 a 2016 ocupou o cargo de Ministro da Cultura de Cabo Verde. Nesse papel, criou o Atlantic Music Expo, um dos mais importantes fóruns de música da diáspora atlântica, e o Fesquintal de Jazz, o festival de jazz internacional do arquipélago. Um homem de muitos chapéus, todos levados a sério.

Mas antes de tudo isso, e durante tudo isso, havia a música. Mario Lucio fundou a Simentera, banda que marcou o regresso da música cabo-verdiana às suas raízes acústicas e reivindicou a cultura africana continental como parte integrante da identidade cabo-verdiana. Compôs para a saudosa Cesária Évora, para Ildo Lobo e para muitos outros. Publicou seis álbuns a solo antes de chegar ao sétimo e mais ambicioso: Independance, lançado em janeiro de 2025, exatamente cinquenta anos após a independência.

The title Independance deliberately contains the word dance. It is a play on words that Mário Lúcio does not explain; he leaves it to be understood. The album is a celebration of memory and consciousness at the same time: a record that celebrates the return of folk dances banned by colonialism and the archipelago’s opening up to urban music from Angola, Congo, Guinea, Nigeria, Ghana and Senegal: afrobeat, soukous, rumba, coladeira, funaná, all blended with the ease of someone who knows the traditions so well that he can play with them. To perform it live, he formed the Pan African Band: Jery Bidan, from Guinea-Bissau, on guitar; Ricardo Campos, from Angola, on bass; and Dilson Groove, from Congo, on drums. A band that is, in itself, a political statement. The Black Atlantic in miniature, gathered on stage.

Mario Lucio é cantor, guitarrista, compositor, poeta, romancista, pintor, legislador e pensador. Em palco, tudo isso está presente ao mesmo tempo, sem que nada pareça demais. É um dos raros artistas que consegue ser simultaneamente sábio e festivo, profundamente político e completamente dançável. A Pan African Band que o rodeia não é adorno, é argumento: a prova viva de que o Atlântico que durante séculos transportou escravos pode hoje ser o mesmo oceano que transporta alegria e dignidade. No Med, cinquenta anos de independência celebram-se assim. A dançar, com consciência.