Home 27 JUN ORCHESTRA BAOBAB (SN)

Palco Cerca

27 JUN

21h30

Orchestra Baobab

(SN)

Há bandas que pertencem a uma cidade. A Orchestra Baobab pertence a um oceano inteiro. Quando surgiu em Dakar, em 1970, o Senegal vivia um momento de independência recente, e a capital fervilhava de clubes noturnos, intelectuais, marinheiros, músicos cubanos em discos gastos e ritmos vindos de toda a África Ocidental. Foi nesse ambiente mestiço e cosmopolita que nasceu uma das orquestras mais elegantes e hipnóticas da história da música africana.

A banda formou-se como conjunto residente do Baobab Club, espaço noturno frequentado pela elite cultural e política de Dakar. Mas aquilo que começou como música de clube rapidamente se transformou numa linguagem singular. A Orchestra Baobab encontrou um equilíbrio raro entre tradição e sofisticação urbana: son cubano, rumba congolesa, jazz latino, griot mandinga, wolof, música casamanquesa e cadências crioulas conviviam com uma naturalidade desarmante.

Enquanto outras bandas africanas procuravam modernidade através do funk elétrico ou do soul americano, a Orchestra Baobab escolheu outra via: a da subtileza. Guitarras fluidas, secções de sopro discretas, percussões quentes e vozes melancólicas criavam um som noturno, elegante, quase cinematográfico. Música que parece sempre chegar do fundo de uma memória coletiva.

O grupo reunia músicos de diferentes etnias e geografias da África Ocidental — Senegal, Togo, Nigéria, Guiné, Casamansa — e essa diversidade tornou-se o seu verdadeiro idioma. Cantavam em wolof, mandinga, diola, francês, espanhol. Cada canção parecia uma travessia atlântica entre Dakar, Havana e Bissau.

Nos anos 70 e início dos 80, tornaram-se uma instituição em Senegal. Mas com a ascensão do mbalax de Youssou N’Dour e das sonoridades mais rápidas e elétricas, a Orchestra Baobab acabou por perder espaço. Em 1987 dissolveram-se silenciosamente. Parecia o fim de uma era.

Só que algumas músicas recusam desaparecer. Nos anos 2000, graças ao entusiasmo de músicos como Nick Gold e Youssou N’Dour, a Orchestra Baobab regressou aos palcos internacionais. O álbum Specialist in All Styles (2002), produzido por Youssou, devolveu ao mundo aquela sonoridade quente, elegante e intemporal. O reencontro não foi um exercício nostálgico. Foi a confirmação de que havia ali qualquer coisa fora do tempo.

Hoje, ouvir a Orchestra Baobab é entrar numa geografia afetiva onde África e Caribe continuam ligados pela mesma corrente invisível. Há nas suas canções uma calma rara, uma sofisticação sem ostentação, uma melancolia luminosa que parece sobreviver a todas as épocas.

Ao vivo, a Orchestra Baobab transforma o palco num salão atlântico de memórias cruzadas. As guitarras deslizam sem pressa, os metais respiram como marés mornas e as vozes carregam décadas de histórias, partidas e regressos. Num mundo acelerado, a sua música lembra-nos que elegância também pode ser revolucionária.