Home 25 JUN TULIPA RUIZ (BR)

Palco Castelo

25 JUN

23h45

Tulipa Ruiz

(BR)

Tulipa Ruiz é daquelas artistas que chegam como uma explosão de cor numa sala cinzenta: cantora, compositora e ilustradora, tornou-se uma das vozes mais singulares da música brasileira contemporânea, trazendo para o palco um Brasil urbano, afetivo e fantástico, cheio de bichos, amores tortos e alegrias resistentes. Na encruzilhada entre MPB, pop e um certo psicadelismo tropical, o seu universo é ao mesmo tempo íntimo e expansivo, doméstico e cósmico.

Nascida em São Paulo e criada também em Minas Gerais, Tulipa cresceu cercada de música: o pai, Luiz Chagas, guitarrista histórico da Vanguarda Paulista, e uma casa onde discos, desenhos e palavras circulavam à vontade. A música, em casa, não era opção: era o ar que se respirava. Antes de se assumir como cantora, trabalhou em redações, fez design e ilustração, cultivou o olhar e a escuta. Só mais tarde, já adulta, começa a mostrar as suas canções em pequenos palcos, como quem testa devagar um segredo. Esse desabrochar tardio dá à sua obra uma maturidade curiosa: parece estreia e síntese ao mesmo tempo.

A consagração chega com “Efêmera” (2010), disco de estreia que a coloca imediatamente no mapa da nova música brasileira, seguido por “Tudo Tanto”, “Dancê” e outros trabalhos que lhe rendem prémios, parcerias e uma base de fãs espalhada pelo mundo. Ao longo deste percurso, partilha estúdios e palcos com nomes como Metá Metá, Criolo, Céu, Marcelo Camelo, entre tantos outros, desenhando uma rede de afetos e trocas que é também um mapa da cena contemporânea. As suas influências oscilam entre os gigantes da MPB (Gal, Caetano, Milton), o pop internacional, o rock alternativo e as canções de infância, filtradas por um humor e uma sensibilidade muito próprios.

Tulipa cunhou para si mesma a expressão “pop florestal” alimentada por uma infância passada entre mato, cachoeiras e rodas de violão. Metade São Paulo, metade Minas Gerais e essa tensão entre o urbano e o orgânico atravessa toda a sua obra. A voz é o centro de tudo: um timbre marcante, com vibratos acentuados, capaz de ir dos sussurros ao grito, da ternura à combatividade, sem perder a identidade. As influências são tão heterodoxas como ela: Gal Costa e Joni Mitchell, Meredith Monk e Yoko Ono, Manoel de Barros e Robert Crumb.

Em 2022, Habilidades Extraordinárias revelou uma artista transformada: gravado em fita magnética analógica, o álbum flirta com rock, soul e funk, com letras experimentais e combativas, num diálogo cerrado com a cena independente de São Paulo. O dueto O Recado da Flor com João Donato tornou-se, inesperadamente, uma das últimas gravações do mestre. Uma despedida que é também uma passagem de testemunho.

Tulipa Ruiz encarna uma das linhas mais férteis da música brasileira atual: a capacidade de falar de temas íntimos e coletivos com leveza, profundidade e encanto. No MED, o chamado “pop florestal” ganha corpo: as canções expandem-se, respiram, ganham outra pulsação, e a voz torna-se ainda mais magnética. Porque, para ela, o palco é um lugar sagrado, de poder e experimentação.