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Photo © Sylvain Gripoix

Palco Castelo

27 JUN

23h45

Sarab

(SY/FR)

A Síria de 2011 deixou de ser apenas um país e tornou-se uma ferida aberta no mapa do mundo. A revolução, a guerra civil, o êxodo de milhões, tudo isso aconteceu enquanto Climène Zarkan vivia em Paris, filha de pai sírio e mãe franco-libanesa, criada em Damasco até aos doze anos antes de regressar à capital francesa. Cresceu entre duas línguas, duas culturas, dois mundos que a história tratou de rasgar. Quando decidiu cantar em árabe numa cidade que não fala árabe, estava a fazer uma escolha política tanto quanto artística: a recusa de deixar morrer o que a língua carrega dentro de si.

Sarāb significa “miragem” em árabe e há nessa escolha de nome toda uma poética: algo que se vê, mas que não se toca, que parece real e não é, que surge no deserto como promessa e se desfaz quando nos aproximamos.

Em 2018, Climène Zarkan e o guitarrista Baptiste Ferrandis encontraram-se em Paris. Começaram como duo a interpretar canções compostas pelo pai de Climène, Bachar Zarkan, reputado tocador de alaúde sírio. Depressa perceberam que o que tinham entre mãos era maior do que um projeto a dois. Cresceram para seis músicos: Thibault Gomez no piano, Timothée Robert no baixo, Paul Berne na bateria e o trombonista Robinson Khoury. Todos figuras centrais da cena de jazz experimental parisiense. A Sarāb estava formada.

O coletivo começou a ser descrito como jazz. Recusaram. Será World music? Encolheram os ombros. A verdade é que a sua música é uma colisão: pós-punk e poesia árabe, maqamāt e sintetizadores analógicos, a voz de Climène Zarkan ora sussurrante ora a uivar por um megafone, ritmos que chegam à beira de partir. As letras convocam a poeta síria Maram al-Masri, o escritor líbio-sudanês Muhammad al-Fayturi, e a voz da própria Zarkan sobre o exílio e a memória: “há palavras em árabe que eu já não reconheço” e cantá-las é a forma de as recuperar.

O álbum de estreia homónimo, em 2019, apresentou reinterpretações de canções tradicionais, muitas sobre amor, mas também a perturbante Tiri, sobre a liberdade palestiniana. Em 2021, Arwāh Hurra (“Almas Livres”) revelou uma banda já a funcionar como coletivo criativo genuíno, cada músico a trazer a sua perspetiva para um vocabulário partilhado. Em 2023, Qawalebese Tape, um EP filmado, nascido de uma imersão profunda nas tradições milenares do Egipto e da Síria roçou o sagrado: música que parece ter chegado de outro tempo, despoeirada de leitores de cassetes e postais amarelados, infundida com influências contemporâneas.

No início deste ano, a Sarāb lançou o álbum mais ambicioso e mais devastador da sua curta existência: Mīt Warde / Cent Roses (“Cem Rosas”), uma homenagem a todos os mártires e desaparecidos da revolução síria e às suas famílias. Gravado num estúdio parisiense célebre por álbuns de rock fundamentais, o disco é, nas suas próprias palavras, “uma odisseia sonora visceral onde os maqamāt, o compromisso político e o poder do rock se encontram”. Dez faixas que incluem “CEASE FIRE NOW” e “Electric Yasmin”. Títulos que dispensam tradução. Climène Zarkan não canta sobre a Síria: canta a Síria, com toda a sua beleza destruída e a sua memória teimosamente viva.

O Med recebe, pois, uma banda em estado de graça e de fúria ao mesmo tempo.