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Palco Castelo

27 JUN

21h45

Ëda Diaz

(CO/FR)

A Colômbia é um país de músicas impossíveis de contar. O vallenato nas planícies caribenhas, o bambuco nas montanhas andinas, o currulao na costa pacífica negra, o bolero que chegou de Cuba e não quis partir, o tango que Medellín adotou com uma devoção que até os argentinos invejam. Tudo isso coexiste num território de vertiginosa diversidade que o mundo ocidental reduziu, durante demasiado tempo, a uma única imagem: a cumbia. Eléonore Diaz-Arbelaez cresceu a saber que havia muito mais. Cresceu também a saber que esse muito mais coexistia dentro de si com Paris, com a Bretanha, com os conservatórios e as salas de concerto europeias. E que a única forma honesta de fazer música era não escolher, era ser tudo ao mesmo tempo.

O nome artístico, Ëda, é a abreviatura do nome próprio e ao mesmo tempo uma declaração de singularidade: aquele trema sobre o e que não existe em francês nem em espanhol, que não pertence a nenhum alfabeto canónico, que é puramente dela. Nasceu em Paris, filha de mãe bretã e pai colombiano de Medellín. Desde muito nova, a vida foi uma travessia permanente entre dois continentes, duas línguas, duas formas de ouvir o mundo.

Ao longo da sua trajetória artística, Ëda passa por coros, experimentações eletrónicas, bandas híbridas, até chegar ao seu universo próprio, onde cabem bambuco, bullerengue, cumbia, vallenato e outros ritmos latino-americanos, reimaginados com sintetizadores, drum machines e uma delicadeza quase cinematográfica. Ouve-se nela tanto o eco das vozes campesinas da montanha como a sombra de trip-hop fumarento de Bristol, de pop alternativa francesa, de certa eletrónica que gosta de detalhe e espaço. Cada canção é um exercício de reconciliação: entre tradição e futurismo.

O som de Ëda Diaz é um corpo em mutação constante: o contrabaixo, carregado de efeitos, desenha linhas graves que parecem rios subterrâneos; por cima, a voz oscila entre o sussurro confessional e o canto ritual, em espanhol, francês ou num lugar intermédio onde as línguas se tocam.

Em 2024 lançou o álbum Suave Bruta, título perfeito para a música que contém: suave e bruta ao mesmo tempo, como a própria Ëda descreveu a sua identidade: “dois aspetos ricos e complementares que sempre vi como opostos”. O contrabaixo é o pulso insistente sobre o qual tudo o mais acontece: salsa esgalhada, currulao electrificado, dembow à colombiana, bambuco viejo revestido de sintetizadores, boleros fantasmagóricos. As influências são declaradas sem hierarquia: Björk e James Blake ao lado de Miles Davis e Juana Molina, García Márquez e Pablo Neruda nas letras que falam de amor, morte e os tormentos do mundo moderno. Samples do barulho de um salão de cabeleireiro, de pássaros tropicais, de melodias latino-americanas clássicas recortadas e recoladas. Uma produção que evoca a cidade e a savana em simultâneo, elegante e crua, introspetiva e inapelavelmente dançável.

Ëda Diaz traz ao Med o retrato vibrante de uma geração mestiça, que já não se revê em fronteiras rígidas e inventa outras formas de estar.