
Quando o povo bielorrusso saiu à rua após as eleições presidenciais fraudulentas de agosto de 2020, Lukashenko respondeu com violência, prisão e exílio. Entre os que partiram havia músicos, escritores, artistas, académicos a geração mais criativa de um país que o regime tratou como propriedade privada. Yegor Zabelov já tinha o mundo como território antes dessa rutura, mas a rutura fê-lo compreender, de forma mais aguda, que carregar a cultura de um país na bagagem pode ser um ato de resistência tão urgente quanto qualquer outro.
Yegor Zabelov, radicado atualmente na Polónia, cresceu em Moguilev, cidade a leste da Bielorrússia, a poucos quilómetros da fronteira russa. O pai era músico. Foi o seu primeiro professor de acordeão, quando Yegor tinha sete anos. Essa transmissão direta, de mão em mão, moldou nele uma relação com o instrumento que nunca seria puramente técnica: sempre foi também afetiva, familiar, quase biológica. Estudou no Conservatório de Moguilev e completou a formação na Academia Estatal de Música da Bielorrússia em Minsk. Uma instituição de rigor clássico severo que lhe forneceu a base técnica, mas não o conformou. Ainda durante os estudos, começou a compor. A primeira obra, uma Sonata que incluía citações dos Prodigy, ganhou o primeiro prémio no concurso de compositores do Conservatório. Era uma declaração de que as fronteiras entre o erudito e o popular não lhe diziam respeito.
Em 2002, ganhou o Concurso Internacional de Músicos Folclóricos da Bielorrússia. Em 2005, fundou o duo Gurzuf com o baterista Artyom Zalessky. Foi com este projeto que percorreu a Europa de festival em festival durante anos, incluindo o Acordeões do Mundo de Torres Vedras. Em 2010, recebeu o Prémio Sergey Kuryokhin de Arte Contemporânea na categoria Ethno-Mechanica, reconhecimento pela fusão incomum de tradição folclórica com experimentação electrónica. Em 2011, fundou o Yegor Zabelov Trio, com Alexander Efimov no baixo e Vladimir Beger na bateria. O seu projeto de referência.
Yegor Zabelov faz com o acordeão o que a maioria dos acordeonistas nem imagina que é possível fazer. As suas influências declaradas são tão díspares quanto reveladoras: Philip Glass, Steve Reich, Michael Nyman, Arvo Pärt do lado do minimalismo clássico; o finlandês Kimmo Pohjonen do lado da experimentação extrema com o instrumento; o Esbjörn Svensson Trio do lado do jazz nórdico introspetivo. Em palco, o acordeão deixa de ser aquilo que se reconhece e transforma-se em coisa mais estranha e mais vasta: um gerador de paisagens sonoras entre o ambient pós-rave, o jazz de vanguarda, o neoclassicismo e a eletrónica sem batida. A publicação britânica Louder Than War escreveu que “ninguém imaginaria que era possível fazer ruídos semelhantes aos de Aphex Twin num acordeão”.
Há músicos que tocam bem. Há músicos que inventam uma linguagem nova. E há músicos que, ao inventar uma linguagem nova, carregam com eles o peso e a memória de um país que o mundo insiste em ignorar. Yegor Zabelov é os três ao mesmo tempo: virtuoso, inventor e testemunha. Num tempo em que a Bielorrússia resiste em silêncio e a sua cultura sobrevive na bagagem dos que partiram, escutá-lo e vê-lo no Med é também uma forma de não olhar para o lado.