Home 26 JUN Dima Libre – Labess Trio (DZ/CA)

Palco Castelo

26 JUN

23h45

Dima Libre – Labess Trio

(DZ/CA)

A Argélia de 2003 era um país a recuperar dos seus ferimentos mais recentes. A Guerra Civil da década de 1990, que custou entre cinquenta mil e duzentas mil vidas, tinha deixado cicatrizes profundas na sociedade. Muitos partiram. Alguns levaram consigo apenas uma guitarra e a certeza de que havia algo por dizer que o país de origem ainda não estava pronto para ouvir. Nedjim Bouizzoul tinha dezoito anos quando emigrou para o Québec com a mãe e as irmãs. Chegou a Montreal no verão de 2003 sem dinheiro, sem rede, sem plano. Apenas com uma voz áspera e um instrumento nas mãos.

O princípio foi humilde ao ponto da poesia: Nedjim começou a tocar no metro de Montreal para ter dinheiro para comer. A cidade, porém, tem ouvidos e rapidamente outros músicos profissionais da cena local repararam nele. As colaborações multiplicaram-se. O exílio, compreendeu depressa, não se vive no singular: “o exílio vivido intimamente conjuga-se no plural.” Com esse entendimento nasceu a banda e com ela o nome. Labess significa, em árabe argelino, “tudo bem”. É o que se responde quando alguém pergunta como estás, independentemente de como realmente estás. Há em duas palavras tão pequenas toda uma filosofia de resistência alegre.

A música dos Labess é o que acontece quando o chaâbi argelino, a música dos bairros populares, a música dos “irmãos mais velhos” de Nedjim em Hussein-Dey encontra a rumba cigana, o flamenco, os sons gnawa do Magrebe, os ritmos afro-latinos da Colômbia e o cosmopolitismo de Montreal. Nedjim canta em árabe argelino, em espanhol e em francês, às vezes na mesma canção, às vezes sem avisar qual vem a seguir, porque o exílio também é isso, a impossibilidade de habitar uma só língua. A voz é profunda, comprometida, com aquela qualidade de quem nunca cantou para convencer ninguém, apenas para não calar o que precisava de ser dito. Os krakeb, as castanholas metálicas da tradição gnawa, cruzam-se com clarinete, trompete, guitarra, baixo e percussão numa orquestra que é, ela própria, um mapa do mundo.

Antes de chegar ao Québec, Nedjim viveu dois anos na Colômbia, onde os ritmos vibravam com a memória dos primeiros escravos africanos exilados na América Latina, onde a guitarra espanhola e o árabe partilham raízes mais fundas do que os atlas sugerem. Esse mergulho colombiano ficou guardado, e emergiu em 2021 com Yemma (“mãe”), o quarto álbum, dedicado à mulher que sacrificou tudo para lhe dar asas.

Labess chega ao Med em plena celebração de 20 anos de estrada. O último álbum Dima Libre (2024) alimenta um espetáculo ainda mais coletivo. O concerto é pensado como travessia: da infância em Argel ao exílio nas Américas, até a um presente em que a banda se assume como voz pan-mediterrânica e transatlântica. Em palco, é a prova viva de que, num mundo de fronteiras, a música continua a ser um lugar onde “está tudo bem”.