
Istambul é uma cidade que nunca dorme. Ao longo de séculos, foi capital de impérios, encruzilhada entre o Oriente e o Ocidente, depósito vivo de civilizações sobrepostas como camadas geológicas. Mas a Istambul de hoje é também outra coisa: uma metrópole de vinte milhões de pessoas a viver sob pressão política crescente, onde a juventude respira arte como quem respira por necessidade. É desse caldeirão que a Lalalar emerge. Não como produto de exportação, mas como grito urgente de dentro.
O nome já é uma declaração de intenções: lala era, no tempo do Império Otomano, o tutor dos príncipes. O homem mais sábio da corte. Mas em turco moderno, a palavra adquiriu também o sentido oposto: o palhaço, o tolo, o que não leva nada a sério. A Lalalar vive exatamente nessa tensão entre o sábio e o bufão, entre o arquivo e a subversão. Formada em 2019 por Ali Güçlü Şimşek, Barlas Tan Özemek e Alican İpek, três músicos veteranos da cena de Istambul, a banda chegou tarde à festa, mas chegou com tudo: com a maturidade de quem já sabe o que quer dizer e a impaciência de quem não tem tempo a perder.
Em 2022, o álbum de estreia Bi Cinnete Bakar (“À Beira da Loucura”) lança-os para o radar europeu com uma força que ninguém esperava. A editora suíça Les Disques Bongo Joe, a mesma que acolhe vozes tão diversas como Meridian Brothers ou Orchestre Tout Puissant Marcel Duchamp, reconhece imediatamente o que tem entre mãos: algo que não cabe em nenhuma prateleira. Em 2023, En Kötü İyi Olur (“No Pior, Vai Correr Bem”) confirma a promessa e alarga o vocabulário: letras sobre política, rebeldia, personalidades narcísicas, triângulos amorosos e a eterna luta contra a hipocrisia do poder.
A Lalalar não faz fusão no sentido turístico da palavra. O que fazem é mais estranho e mais honesto: escavam o legado da Anatólia: o saz, as polirritmias antigas, a herança do psicadelismo turco dos anos 70. Fazem-no passar pela corrente de alta tensão do punk, da eletrónica industrial, do funk e da new wave dos anos 80. O resultado é desconcertante e irresistível: linhas de baixo gordas cinematográficas e hipnóticas, batidas elétricas e sujas, guitarras que se enrolam como serpentes, que ora soam a surf, ora a rock anatólio, samples que piscam o olho tanto ao cinema turco antigo como à cultura de videojogo.
A voz surge por vezes declamada, quase rap, noutras em registo hipnótico, repetitivo, criando slogans e imagens que se colam à memória. As canções constroem-se como colagens, cheias de recortes, efeitos, cortes bruscos, mas há sempre um fio condutor rítmico que mantém o corpo em movimento. É uma música que respeita a canção, mas pensa como DJ: sempre à procura da próxima subida de energia.