Home 27 JUN Ganna (UA)

Palco Hammam

27 JUN

22h00

GANNA

(UA)

Há guerras que tentam apagar não apenas vidas, mas memórias. Há vozes que resistem.

GANNA é a voz de uma Ucrânia que resiste cantando: uma artista que transforma canções ancestrais em paisagens sonoras contemporâneas, entre o jazz, a eletrónica e o improviso. A partir de Berlim, leva para o mundo um país ferido, mas vivo, em que cada canção é também um gesto político de memória e futuro.

Nascida perto de Kyiv, numa aldeia chamada Vyshnyaky, Ganna Gryniva emigrou para a Alemanha com a família em 2002 e cresceu entre duas realidades: a Ucrânia pós-soviética em transformação e uma Europa ocidental que a acolhe. Em plena guerra e num contexto de ameaça à identidade ucraniana, ela assume-se como guardiã de um património vivo, recolhendo canções em aldeias e arquivos e devolvendo-as em palco com a força de um manifesto.

Ganna estudou em Leipzig e na Universidade de Música Franz Liszt (Weimar), mas foi a descoberta do folclore do seu país, em viagens de pesquisa por várias regiões da Ucrânia, que lhe deu a verdadeira direção artística. Desde 2013 percorre aldeias, conversa com cantoras tradicionais, grava histórias e melodias, recolhe canções de colheita, rituais, amor e luto, construindo um arquivo íntimo que alimenta a sua criação. Em 2014 funda o GANNA Ensemble, quinteto de etno-jazz de Berlim para o qual escreve e arranja todo o repertório.​

O primeiro álbum do ensemble, Dykyi Lys (“Raposa Brava”, 2020), apresenta uma fusão ousada de canções tradicionais com jazz moderno e improvisação. Segue-se Home (2022), onde o conceito de casa é explorado entre o país de origem e o exílio, sempre com melodias folclóricas como fio condutor. Em Kupala (2023), em nome próprio, Ganna experimenta loops, samples e electrónica, aproximando-se da folktronica, e em Utopia (2025) leva mais longe essa linguagem, misturando canções rituais ucranianas com indie-pop, e ecos de kora e lamelofones africanos. As suas influências vão da tradição vocal rural à escola do jazz europeu, passando por eletrónica experimental e músicas de raiz de outros continentes.

Em palco, GANNA tanto surge em formato de quinteto etno-jazz como em performance individual de eletro-folk, em que canta, manipula sintetizadores, loops e samples ao vivo. A sua voz é elástica e profundamente expressiva, capaz de melismas ancestrais, sussurros íntimos e explosões improvisadas, enquanto harmonias jazzísticas e texturas eletrónicas envolvem canções sobre amor, colheitas, espíritos da água ou sereias. As letras, quase sempre em ucraniano, falam de aldeias, campos, fantasmas, avós teimosas e uma relação intensa com a natureza, soando poéticas mesmo para quem não entende a língua.​

A música de GANNA é, ao mesmo tempo, cuidado e clamor: protege uma tradição ameaçada e grita por um país que insiste em existir através da arte.