
Quando Bonga se fez ouvir, Angola era ainda uma nação a lutar por se reconhecer livre. As suas canções ecoavam no coração de quem sonhava o fim da colonização e o nascimento de uma identidade própria. Cantava o semba quando este já era uma forma de resistência: ritmo mestiço, raiz afro-lusófona, corpo e palavra em movimento. Num tempo em que a música era também arma e refúgio, Bonga ergueu a voz como símbolo de unidade e libertação. Foi perseguido, exilado, mas nunca silenciado. O seu canto correu de Luanda a Lisboa e daí ao mundo, levando a memória de um povo.
Nascido José Adelino Barceló de Carvalho, em Kipiri, nos arredores de Catumbela, em 1942, Bonga cresceu entre os batuques de Angola e os discos que chegavam do outro lado do Atlântico. Antes de ser músico, foi atleta de alta competição e chegou a representar Portugal nos 400 metros. Mas quando o vento da mudança começou a soprar em África, trocou o nome de corredor pelo nome de mensageiro: Bonga Kuenda. Ou seja, “aquele que atravessa fronteiras a correr”. A partir daí, correu, sim, mas atrás da liberdade. Bonga partiu para Holanda, para França, para o exílio que tantos conheceram e poucos souberam transformar em obra.
Instalado na Europa nos anos 70, Bonga tornou-se voz-chave da diáspora angolana. O seu álbum de estreia, Angola 72, fundiu guitarras acústicas e reco-recos, saxofone e melancolia, e deu ao semba um novo horizonte: urbano, poético, universal. Influenciado por Liceu Vieira Dias, Rui Mingas, pela morna e pelo fado, reinventou o semba como linguagem híbrida, entre o lamento e o convite à dança.
Ao longo de mais de cinco décadas, construiu uma obra que é também um arquivo: das influências do batuque e da rebita ao diálogo com o jazz e com a música cabo-verdiana, da língua kimbundu, que insiste em cantar. Nas suas canções moram histórias de pescadores, de mulheres que esperam, de crianças que crescem depressa demais, de um continente que o Ocidente teima em não ouvir com a devida atenção. A voz de Bonga é inconfundível: rouca, terrosa, quase ancestral. Transporta o sal das estradas de terra e a doçura dos quintais de Luanda.
Aos 84 anos, com mais de meio século de canções e resistências, Bonga regressa ao MED, 8 anos depois, com a mesma força de outrora.