
Nos anos 90, quando o panorama musical global começava a abrir-se às fusões e às identidades híbridas, surge uma voz que desafia fronteiras: Natacha Atlas. Símbolo maior de uma geração que procurou unir o Oriente e o Ocidente. Da eletrónica urbana de Londres aos ecos melismáticos do Cairo antigo, a sua música foi e continua a ser um território onde culturas se tocam, dialogam e se reinventam.
Filha de pai de origem árabe (com raízes egípcias, marroquinas e palestinianas, e alguma ascendência sefardita) e mãe inglesa, Natacha cresceu entre Bruxelas e o Reino Unido, movendo-se entre mundos com naturalidade. A descoberta artística dá-se em plena década de 1990, no epicentro multicultural de Londres, através da editora Nation Records, bastião das fusões ousadas entre eletrónica, dub e música árabe. Foi também aí que se cruzou com os Transglobal Underground, coletivo que lhe abriu as portas (e com quem continua a atuar) de uma imaginação sonora sem limites. Essa colaboração inaugurou a sua assinatura: uma alquimia de máquinas e maqams, sintetizadores e derbakes, beats e baladi.
Da estreia a solo com Diaspora (1995) a discos como Gedida (1999) ou Ayeshteni (2001), Atlas construiu um percurso coerente e aventureiro. A sua voz transita livremente entre dialetos árabes, inglês e francês; funde a tradição vocal egípcia de Umm Kulthum com o impulso cosmopolita do trip-hop e da música eletrónica. Colaborou com mestres como Nitin Sawhney, Jean-Michel Jarre, ou Ibrahim Maalouf, e soube reinventar-se em direção a uma sonoridade mais acústica, de câmara, onde o alaúde e o violino árabe convivem com o contrabaixo e o piano.
A música de Natacha Atlas é, acima de tudo, um lugar de pertença plural. A sua voz, quente e translúcida, atua como ponte entre continentes e tempos históricos. Cada canção é uma travessia: do Magrebe ao Levante, da melancolia andaluza à vibração eletrónica, da espiritualidade sufi ao desejo pop.
Nove anos depois de ter atuado no Ciclo Mundos do Teatro da Trindade, Natacha Atlas regressa a Portugal com uma maturidade luminosa. A sua voz continua a exalar o mesmo poder hipnótico, agora mais depurado, mais sábio. Acompanhada por músicos que se movimentam entre a improvisação jazzística e o fraseado árabe clássico, a artista transforma o concerto num ritual sensorial: ancestral e futurista, íntimo e universal.