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27 JUN

23h30

Arnaldo Antunes

(br)

O Brasil tem uma relação visceral com a palavra cantada. Do modernismo ao tropicalismo, da bossa nova ao rock paulista, a canção brasileira nunca foi apenas música, foi sempre também poesia, manifesto, resistência. É nessa linhagem que Arnaldo Antunes se inscreve, e é dela que faz a sua própria coisa: singular, inclassificável, teimosamente livre.

Nascido em São Paulo em 1960, cresceu marcado pelo golpe militar de 64, pela contracultura e pelo tropicalismo. Um caldo que moldou uma geração que aprendeu a usar a arte como escudo e como lança. As suas influências precoces iam dos Beatles a Roberto Carlos, de João Gilberto às tradições literárias brasileiras, nomeadamente a poesia concreta e a obra de Guimarães Rosa. Estudou Letras na Universidade de São Paulo sem chegar ao fim do curso. A música chamou-o primeiro.

Em 1982 co-fundou os Titãs, banda que durante uma década misturou rock, reggae e MPB em sete álbuns que marcaram uma geração. Em 1992, deixou o grupo por divergências criativas e partiu para uma carreira a solo que seria ainda mais ousada. Influenciado pela poesia concreta, lançou em 1993 o álbum Nome, acompanhado de um livro e um vídeo. Um objeto artístico total que anunciava um criador que recusava fronteiras entre suportes. Em 2002, com Marisa Monte e Carlinhos Brown, formou os Tribalistas, cujo álbum de estreia vendeu mais de dois milhões de cópias no Brasil e na Europa.

Mas é talvez em A Curva da Cintura que Arnaldo Antunes melhor se revela enquanto artista de música global no sentido mais genuíno. Convidado pelo mestre da kora Toumani Diabaté a gravar no Mali, juntou-se a Edgard Scandurra em Bamaco para criar uma fusão afro-brasileira que combina rock, raízes africanas e blues. Projeto que o Med honrosamente apresentou na sua edição de 2012.

A identidade sonora de Antunes é a da palavra que não se contenta com o seu significado, quer também o seu som, o seu peso, a sua forma visual. Música e poesia são para ele a mesma coisa dita de maneiras diferentes. A voz é grave, carregada, insistente. As canções constroem-se devagar e ficam para sempre.

Em 2026, Arnaldo Antunes chega ao palco com mais de quatro décadas de carreira e uma atualidade que não envelhece. O seu repertório é uma viagem pelo Brasil profundo e pelo mundo que o Brasil ajudou a construir. Na bagagem traz Novo Mundo, o seu vigésimo álbum a solo editado em 2025. Um disco que expande a MPB para diálogos globais com David Byrne e Ana Frango Elétrico, provando que o brasileiro pode ser cosmopolita sem perder raízes.

O título não é gratuito: depois de uma despedida (a que fez com a digressão final dos Titãs em 2025), um começo. Depois do adeus, um mundo novo. É essa lógica circular que reforça a urgência do seu regresso (agora a solo) ao Med.