
Nascido em 1950 em Sarajevo, no coração dos Balcãs, Goran Bregović cresceu entre o caos da ex-Jugoslávia e o fervor das suas ruas multiculturais. Filho de um croata católico e de uma sérvia ortodoxa, aprendeu guitarra com o avô cigano. Desenvolveu a sua dieta musical entre as chamas de casamentos e cafés onde se misturavam sérvios, croatas, judeus sefarditas e ciganos. Afinal, como refere Bregović, “a música é a única pátria que nunca se desintegrou.”
Começou pelo rock. Nos anos 70, foi o rosto dos Bijelo Dugme, a banda mais popular da Jugoslávia que enchia estádios. Mas Bregović ouvia outra coisa por baixo do amplificador: os metais das festas de casamentos nos bairros de Sarajevo, os coros femininos que chegavam de aldeias búlgaras como se viessem de outro século, o violino cigano que não pede autorização para entrar em nenhuma sala. Quando o realizador Emir Kusturica o convidou para compor a banda sonora de O Tempo dos Ciganos, em 1988, Bregović não hesitou — e ao fazê-lo encontrou a linguagem que procurava sem o saber. Arizona Dream, Underground, A Rainha Margot: o cinema tornou-se o laboratório onde percebeu que a sua música precisava de espaço épico, de cerimónia, de canções para casamentos e funerais porque é aí que a vida acontece.
Com o eclodir da guerra dos Balcãs, Goran Bregović forma em 1991 a Wedding and Funeral Band (Orquestra para Casamentos e Funerais). O nome reflete a essência balcânica: a mesma música serve tanto para celebrar a vida como para chorar os mortos. Durante o cerco de Sarajevo (1992-95), tocou em casamentos e funerais reais, salvando músicos ciganos bósnios da morte.
O som de Bregović é, pois, um banquete de núpcias no fim do mundo. Há metais balcânicos que empurram o sangue para cima, vozes femininas búlgaras que parecem vir de outro século, percussão que não deixa escolha, harmonias que são simultaneamente sagradas e pagãs. Tradições ortodoxas, klezmer, sevdah bósnio e punk global.
Ele próprio gosta de dizer que compõe música para funerais e casamentos — ou seja, para os momentos em que a vida exige mais do que palavras. A sua Wedding and Funeral Band não é um ensemble, “é uma pequena Jugoslávia em palco”.