
Sérgio Godinho não tem género. Tem universo. As suas canções têm imensas vidas. Imensos arranjos. Habitam ao mesmo tempo o bar e a biblioteca, a estrada e a praça pública. São letras que se lembram, melodias que insistem. E ao vivo, tudo isso ganha uma dimensão diferente: ele é um dos raros artistas capazes de fazer uma sala grande sentir-se íntima. Godinho é, pois, um cartógrafo de geografias afetivas, onde cada tema é um porto de escala diferente, mas a língua portuguesa é sempre o cais de partida.
Nos últimos anos, Sérgio Godinho, com a excelsa formação os Assessores e com outros cúmplices, tem revisitado o seu reportório ao vivo, que desconstroem e reimaginam clássicos como “Liberdade”, “Os Conquistadores” ou “Homem dos Sete Instrumentos”, como se cada concerto fosse um laboratório de arranjos e humores.
Ao longo do tempo, foi incorporando jazz, ritmos urbanos, texturas eletrónicas, ecos de música brasileira e atlântica, mantendo sempre a palavra no centro: histórias em formato de canção, com personagens, ângulos inesperados e uma ironia que nunca se divorcia da ternura.
Registos recentes, como o projeto ao vivo Sérgio vezes três, mostram-no em diálogo próximo com o público, misturando delicadeza acústica, pulsação rítmica e uma permanente disponibilidade para ouvir o tempo presente e comentá‑lo em palco.
Há uma generosidade na sua presença em palco, uma entrega sem artifício, que transforma o concerto numa conversa longa e necessária entre ele e quem o ouve.
Em tempos de ruído rápido e memória curta, Sérgio Godinho e os músicos que o acompanham, lembram-nos que a canção pode ser lugar de amor (Às Vezes O Amor ainda está bem vivo), de encontro, pensamento e dança ao mesmo tempo. É urgente vê-lo em palco porque cada concerto é uma aula viva de como a música portuguesa dialoga com o mundo sem perder o sotaque, abrindo janelas para outras geografias sonoras, sem fechar a porta de casa.
Em 2026, chega com a energia de quem prepara um novo disco de canções inéditas onde essa identidade sonora madura, entre a crónica e o sonho, entre a ferida e a festa, se renova mais uma vez, alimentada por décadas de estrada.