
Há músicas que nascem de um lugar. E há músicas que nascem de uma necessidade.
Portugal tem uma relação antiga com o ritmo. Da percussão dos batuques que atravessaram o Atlântico à pele tensa dos tambores e dos bombos de festa. É um país que guarda no corpo aquilo que não consegue dizer em palavras. Num tempo em que quase tudo cabe num ecrã, três músicos decidiram insistir no oposto: no peso, na matéria, no embate físico com o instrumento.
Tudo começou com um número: 106. Os anos de vida do Theatro Circo de Braga, celebrados em abril de 2021 com a encomenda de um tema comemorativo. Rui Rodrigues, veterano de projetos como At Freddy’s House, OSSO e Ângela Polícia, propôs algo incomum: um momento percussivo partilhado com outros bateristas. Convidou Ricardo Martins, de carreira vasta que inclui Pop Dell’Arte, Jibóia e Filho da Mãe, e Susie Filipe, das Moonshiners e da SIRICAIA. O tema resultante chamou-se Sangue & Suor.
Os três vêm de histórias diferentes. Do rock, do experimentalismo, do teatro, da rua. Mas reconheceram-se na mesma fome de som. Seguiram-se residências artísticas em Leiria, longe da pressão dos palcos, à procura de uma linguagem que ainda não tinham explorado juntos. Em 2023, estrearam O Salto, editado numa parceria entre o Theatro Circo e a Omnichord Records, com seis temas e convidados que mapeiam uma cena portuguesa viva e plural: Surma, Selma Uamusse, LARIE e Cabrita. Nomes que abrem o universo rítmico do trio a melodias, sintetizadores e texturas eletrónicas, num diálogo entre percussão orgânica e camadas processadas.
A identidade sonora dos Sangue Suor é um animal raro. Três baterias dispostas como um pequeno exército, polirritmias que tanto podem sugerir dança como transe, clube noturno como ritual xamânico.
O som que resulta é irrequieto e atravessa fronteiras entre o experimental e o dançável, entre a fúria e a meditação, entre o jazz de câmara e a eletrónica, entre o Portugal de dentro e a diáspora.
Sangue Suor chegam ao Med com um repertório sedimentado e uma cumplicidade em palco que só o tempo cria. Aquilo que fica depois de se dar tudo.