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25 JUN

01h30

Dikanda

(PL)

A Europa Central conhece bem o peso das fronteiras. Szczecin, cidade polaca à beira do Óder, foi durante séculos um lugar de passagem, de conquista e de reconstrução identitária: alemã, polaca, e tudo o que ficou entre as duas. É nesse solo historicamente instável, que em 1997 nasce a Dikanda.

O nome diz tudo: dikanda é, numa língua da África Central, a palavra para família que se solidificou na estrada. A vocalista e acordeonista Anna Witczak-Czerniawska, ao lado do guitarrista Piotr Rejdak, começou por tocar nas ruas da Europa, a improvisar canções para financiar viagens, até que as jam sessions se transformaram numa banda estável. É precisamente esse o espírito do grupo, que vive e trabalha como uma pequena comunidade amorosa, onde cada músico acrescenta uma geografia emocional própria à cartografia sonora do grupo.

O primeiro álbum, Muzyka czterech stron wschodu (“Música dos quatro pontos do Oriente”), de 1999, era uma declaração de intenções: inventariar o mundo sonoro do Leste com a seriedade de um etnomusicólogo e a paixão de quem simplesmente não consegue parar de dançar

O “espaço” de referência da Dikanda é, pois, o Oriente num sentido mítico e antropológico. Um lugar que se estende muito para além do âmbito geográfico: os Balcãs, o Médio Oriente, a Península Arábica, a Índia, a África, o mundo cigano dos Cárpatos.

Dikanda não canta em polaco, nem em macedónio, nem em romeno, nem em árabe. Ou melhor, canta em tudo isso e em mais uma coisa que não existe em nenhum dicionário. Uma das suas marcas mais distintivas é a criação de palavras inventadas nas letras das suas canções, dando origem a uma língua própria chamada dikandisz, a língua da emoção e do coração. Não é truque nem artifício: é a confissão honesta de que há sentimentos que nenhum idioma existente consegue conter, e que a única resposta possível é criar um novo. Num tempo em que as identidades se fecham sobre si mesmas e a diferença assusta, eles propõem o oposto: uma língua que ninguém fala e que toda a gente entende.

O resultado é uma música que comunica para lá das fronteiras linguísticas: quem não entende o texto compreende o gesto, a vibração, a urgência cujas canções oscilam entre danças frenéticas e baladas hipnóticas, passando por métricas irregulares típicas dos Balcãs e escalas orientais cheias de tensão e brilho.