
Ablaye Cissoko & Cyrille Brotto são o encontro raro entre a palavra milenar dos griots da África Ocidental e o sopro dançante dos bailes do Sul de França. No cruzamento entre tradição mandinga, folk e danças tradicionais europeias, jazz e música erudita.
Ablaye Cissoko vive em Saint-Louis, no Senegal. É descendente de griots, os guardiões tradicionais da cultura mandinga da África Ocidental, conhecidos localmente como djelis. Historiadores, genealogistas, contadores de histórias que transmitem o saber de pai para filho através da música. Cissoko, conhecido como “Le Griot Rouge”, símbolo de uma tradição milenar em permanente reinvenção, é um exímio intérprete de kora. Instrumento com oitocentos anos de história, que combina as características do alaúde e da harpa, utilizada extensamente pelas famílias djeli. Nas suas mãos, a kora de 21 cordas não é artefacto de museu nem curiosidade folclórica: é um ser vivo, capaz de sussurrar e de gritar, de contar o sofrimento e a alegria com a mesma naturalidade com que a chuva cai. Suavidade de timbre, finura das linhas melódicas, fluidez do toque, virtuosidade sem ostentação, pureza e generosidade.
Cissoko é provavelmente um dos artistas africanos mais transversais da sua geração, transitando com igual à-vontade pelos universos das músicas do mundo, do jazz, da clássica e até do barroco, sobretudo nos profícuos diálogos que tem desenvolvido com o Ensemble Constantinople do iraniano Kiya Tabassian.
Cyrille Brotto chega de uma França rural e profunda onde o acordeão diatónico é língua materna, instrumento de festa e memória, voz dos campos e das tabernas occitanas. Músico habituado a pôr aldeias inteiras a dançar, mas também a experimentar com eletrónica e linguagens contemporâneas em interessantes projetos como Groove Factory.
O encontro entre os dois resulta num diálogo improvável e óbvio ao mesmo tempo. De uma cumplicidade quase telepática. Não é fusão no sentido fácil da palavra. É conversa entre iguais, é escuta mútua e contemplativa levada a um grau de refinamento que poucos conseguem atingir.
Em 2025, depois do belíssimo álbum Instant de 2022, os dois regressaram com Djiyo, que significa “água”, trazendo as suas canções espirituais e místicas fundadas no diálogo entre kora e acordeão. A água do título não é metáfora gratuita: é a imagem exata do que esta música faz: flui, contorna obstáculos, encontra o caminho, une o que parecia separado.
O resultado é uma música de câmara afro-europeia: íntima, calorosa, com contornos de improvisação jazzística, mas enraizada numa tradição que sabe exatamente de onde vem.
Ablaye Cissoko
Cyrille Brotto