
Photo © Abdelilah Belam
O Mediterrâneo é um mar de camadas. Nele se depositaram, ao longo de milénios, civilizações, línguas, religiões e deportações. Entre todas as histórias de encontro e de perda que as suas margens guardam, poucas são tão vertiginosas como a dos judeus sefarditas expulsos da Península Ibérica em 1492. Levaram consigo o castelhano medieval, misturaram-no com o árabe marroquino e com o hebraico, e criaram uma língua que durante séculos sobreviveu apenas nas bocas de mulheres, em canções cantadas em casas e em pátios. Essa língua chama-se Haquetia e estava quase morta quando Lala Tamar a encontrou.
O nome completo é Tamar Bloch. Nasceu na Galileia, em Israel, filha de mãe marroquina e pai brasileiro o que significa que cresceu com o árabe do Magrebe, com o hebraico e com o português a circular pela mesma casa, sem que nenhuma dessas línguas parecesse mais legítima que as outras. Lala é um honorífico marroquino que significa “senhora” ou “menina” e há nessa escolha de nome artístico toda uma declaração de fidelidade às raízes maternas.
A música que a salvou chegou tarde, na casa dos vinte anos, quando tropeçou nas gravações etnográficas das mulheres judaicas marroquinas a cantar em Haquetia, guardadas no Arquivo Nacional em Jerusalém. Aí percebeu que a sua voz não vinha só do presente: era herdeira de um coro de avós, tias, vizinhas, cujas melodias estavam à espera de ser reencarnadas.
O que fez a seguir foi digno de arqueóloga: transcreveu pacientemente as gravações, estudou a tradição musical clássica marroquina durante anos, aprendeu a tocar percussão e guimbri. O instrumento de cordas de origem gnawa, feito de pele de camelo, e tornou-se a primeira artista a gravar um álbum contemporâneo em Haquetia. O álbum de estreia homónimo, lançado em 2020 em plena pandemia é um manifesto de hibridização entre a tradição profunda das mulheres norte-africanas, música gnawa, andaluza, sefardita, a produção pop de pista de dança e batidas de eletrónica contemporânea.
Para Lala Tamar, a sua música não é só entretenimento: é um gesto de preservação e reinvenção cultural, que nos lembra que a memória também pode suar, rodopiar e rir. E porque, quando ela entra em palco, o passado deixa de ser passado. Torna-se batida, respiração, futuro em movimento.