
Fidju Kitxora é um corpo em movimento entre Lisboa e Cabo Verde: um coletivo enigmático que transforma a pista de dança em laboratório de memória e futuro. Da rave de funaná às batidas afrohouse, passando por semba e kuduro.
“Fidju Kitxora” significa “filho que chora” em crioulo, imagem perfeita para um projeto nascido do luto e da saudade de uma terra que, durante anos, só existiu na imaginação. Depois da morte da avó, André “Xina” Coelho (filho de pai português e mãe cabo-verdiana) parte para Cabo Verde, caminha centenas de quilómetros a pé entre ilhas e famílias, grava vozes, ruídos, celebrações e silêncios, e percebe que quer devolver em música o amor recebido.
Sobre essa matéria-prima, constrói uma arquitetura sonora que não pede licença a nenhum género: o funaná torrencial e indomável de Cabo Verde, com o seu ferrinho e acordeão (como em Lobu na Sukuru, com a participação de Scúru Fitchadú), enreda-se com o semba angolano, o kuduro, a afrohouse, a ecos de techno e (outras) experimentações eletrónicas, sempre atravessados por gravações de campo. Dessa alquimia, nasceu Racodja, álbum de estreia lançado em 2024.
Em palco, o anonimato parcial (rosto oculto, foco na performance de corpo inteiro), transforma o concerto numa espécie de arquivo vivo: luz, dança e som conspiram para que o público se perca na multidão ao mesmo tempo que reencontra perguntas antigas sobre pertença e identidade.
Com o álbum de estreia Racodja a abrir portas e o novo single Simbron a anunciar um segundo álbum previsto para 2026, o Fidju Kitxora está num momento de viragem. O MED recebe um organismo vivo em mutação contínua, a prometer que a próxima paragem será ainda mais profunda nessa viagem pela pós‑diáspora.