
Há quem confunda os termos afrobeat e afrobeats e o esclarecimento é importante, sobretudo quando falamos de Seun Kuti. O afrobeat, criado por Fela Kuti na Lagos dos anos 70, é um género potente e expansivo: mistura de ritmos iorubás, jazz, funk, soul e uma coragem política sem receio. Cada tema era manifesto, cada sopro, uma faísca de revolta. Já o afrobeats (no plural), que domina hoje as pistas urbanas de Lagos a Londres, é um movimento mais pop e eletrónico, nascido de uma descendência estética, mas com menos carga militante. Seun Kuti permanece fiel ao primeiro. O afrobeat original, o corpo e o nervo de uma África que pensa, dança e resiste.
Seun Anikulapo Kuti nasceu em 1983, em Lagos. Filho mais novo do lendário Fela Kuti e da militante e performer Fehintola Anikulapo Kuti. Cresceu literalmente dentro do palco e dos ensaios do Shrine, o lendário quartel-general da orquestra Egypt 80, onde aprendeu cedo que música e política podiam falar a mesma língua. Aos nove anos já acompanhava o pai em digressões; aos catorze, depois da morte de Fela, assumiu a liderança da banda. Um gesto quase mítico de continuidade.
Desde então, Seun Kuti tem percorrido o mundo com uma energia visceral. Dos primeiros álbuns Many Things (2008) e From Africa with Fury: Rise (2011, produzido por Brian Eno) até a Black Times (2018), ergue uma ponte entre a Nigéria contemporânea e o legado do pai, acrescentando-lhe urgência e fogo próprios. Influenciado pelo jazz insurgente de Coltrane, pelo groove político de James Brown e pela poesia de resistência de artistas africanos modernos, Seun cultiva um som que não se limita à homenagem. É reinvenção viva.
No comando da Egypt 80, a banda de metais implacáveis e percussões que nunca adormece, Seun Kuti mantém o ADN do afrobeat: a extensa construção rítmica, a hipnose repetitiva, o discurso social no centro da dança. Mas há também espaço para reaggae, spoken word e improvisação jazzística. Cada concerto é um rito de libertação. O legado de Fela percorre o palco, mas Seun habita-o como um líder novo: feroz, eletrizante, profundamente contemporâneo.
15 anos depois, o MED revê um furacão de energia que arrasta a orquestra e o público para uma celebração de liberdade africana e universal.