
Photo © Ravi Smits
Há vozes que chegam de um lugar difícil de situar no mapa. A de Arooj Aftab é uma delas. Nascida em Lahore, no Paquistão, criada entre a Arábia Saudita e os Estados Unidos, ela é filha de uma geografia interior tão vasta quanto contraditória. É precisamente dessa tensão que nasce a sua música.
Cresceu rodeada pelo canto devocional islâmico, pela poesia clássica urdu que os avós recitavam como quem reza, e pela música pop que chegava por canais menos esperados. Nada disso se perdeu. Tudo ficou, a sedimentar, à espera de forma. Em criança, foi uma autodidata curiosa, fascinada pelas gravações de Nusrat Fateh Ali Khan, Abida Parveen e Mehdi Hassan. Na adolescência, começou a reinterpretar clássicos do ghazal e do qawwali com uma subtileza que rompia convenções.
Mais tarde, quando chegou ao Berklee College of Music, em Boston, encontrou a linguagem técnica para o que já trazia dentro. Encontrou também o jazz modal, a música minimalista, a eletrónica ambiental e a composição moderna.
O que emergiu desse percurso é uma obra que desafia qualquer prateleira. Os seus álbuns, em particular Vulture Prince, lançado em 2021 e dedicado ao irmão que perdeu demasiado cedo, são objetos de rara densidade emocional. Neles, o ghazal e o sufi qawwali encontram arranjos de cordas que parecem respirar, camadas electrónicas que funcionam como névoa, e uma voz que não força nunca, que não se compete com nada, mas que ocupa tudo.
Em 2022, o Grammy de Melhor Performance Global, a curiosidade de Barack Obama incluir a canção Mohabbat na sua playlist de verão, veio confirmar o que os ouvintes mais atentos já sabiam: Arooj Aftab não é uma promessa. É uma presença.
Desde então, Aftab tem colaborado com figuras como Vijay Iyer, Shahzad Ismaily ou Meshell Ndegeocello, construindo pontes entre o jazz espiritual, o neoclássico e as raízes sufi. O trio Love in Exile (2023) consolidou essa estética de improvisação contemplativa. Música como respiração partilhada.
Night Reign (2024) confirmou que o prémio não tinha sido um acidente. Era apenas o mundo a pôr-se a par do que ela já fazia.
A sua identidade sonora é feita de paradoxos produtivos: é antiga e contemporânea, é íntima e cósmica, é contida e absolutamente devastadora. Ouvir Arooj é aceitar ser conduzido a um tempo que não é bem o nosso. Um tempo suspenso, onde a dor e a beleza coexistem sem se anularem.
No MED apresentará um espetáculo que é ao mesmo tempo ritual e confidência.